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Histórias de aviões da II Guerra Mundial no Baixo Alentej

Tópico em 'Também são Classicos' iniciado por Marco Pestana, 15 Mar 2008.

Tópico em 'Também são Classicos' iniciado por Marco Pestana, 15 Mar 2008.

  1. Histórias de aviões da II Guerra Mundial no Baixo Alentejo

    Histórias de aviões da II Guerra Mundial no Baixo Alentejo

    Portugal manteve-se neutro na II Guerra Mundial mas a população contactou de perto com algumas incidências do conflito. Em 1941, um bombardeiro alemão despenhou-se em Amareleja, outro aterrou de emergência nos arredores de Moura; no ano seguinte, um avião inglês foi obrigado a aterrar perto de Serpa.
    Nove de Fevereiro de 1941. Um grupo de trabalhadores rurais assiste, incrédulo, à aterragem de um avião nazi na herdade de Santa Marta, arredores de Moura. É um Focke Wulf Fw 200 Condor, lendário bombardeiro da II Guerra Mundial, especializado no afundamento de navios mercantes. Os britânicos baptizaram-no como "Carrasco do Atlântico", tais os estragos que tem provocado na sua frota. Do interior saem seis tripulantes. Perante a estupefacção dos camponeses, os alemães lançam fogo ao avião, trocam as fardas por roupas civis e abandonam o local. Põem-se a caminho da fronteira, mas são detidos no dia seguinte, na zona de Safara. Transportados para Moura, ficam alojados no Grande Hotel, de onde desaparecem, misteriosamente ou talvez não, uns dias depois.
    Quinze de Junho de 1941. Se tudo corresse bem, se a Guarda Fiscal não resolvesse dar caça aos contrabandistas que enxameavam a raia da Margem Esquerda do Guadiana, aquela seria uma noite sem história para Domingos Ramalho. Em meia dúzia de horas punha-se em Espanha, vendia a carga que transportava e voltava tranquilamente a sua casa, em Amareleja. Mas o inesperado aconteceu. Ao passar pela herdade da Tapada, Domingos Ramalho presenciou a explosão de uma aeronave, na escuridão do céu. Viu depois o grande pássaro, outro Focke Wulf Fw 200 Condor, despenhar-se, envolto em chamas, arrastando para a morte os seus seis ocupantes.
    Dezassete de Novembro de 1942. Um avião Blenheim Mk V, da Royal Air Force (RAF), aterra de emergência nos campos de Serpa. Os três tripulantes são levados sob vigilância policial para a vila e alojados na Pensão Ramos. Ao fim de cinco dias, são encaminhados para Elvas, dali para Lisboa e finalmente para Inglaterra.
    Estes são três dos episódios que trouxeram ao Alentejo o som e a fúria da II Guerra Mundial. Sessenta anos passados sobre o desfecho do trágico conflito, que entre 1939 e 1945 ceifou 55 milhões de vidas, os incidentes com aviões alemães e aliados conservam-se vivos na memória colectiva da Margem Esquerda do Guadiana. A população de Amareleja, que testemunhou o caso mais dramático, viu com os seus próprios olhos os efeitos destruidores de uma guerra que oficialmente não lhe dizia respeito, pois Portugal, asseguravam as autoridades, era um país neutral. Mas uma coisa era a declaração de neutralidade, outra, bem diferente, a garantia de que esse estatuto seria respeitado pelos beligerantes. Não o foi, como demonstram os factos sucedidos no Alentejo e noutros pontos do País, nomeadamente no Algarve.

    Quatro bombas na Tapada

    A partir do segundo ano de guerra, Hitler aposta no bloqueio económico da Inglaterra, atacando os navios mercantes britânicos que transportam abastecimentos. Da ofensiva aérea encarregam-se os Focke Wulf Condor da unidade KG-40 da Luftwaffe, aquartelada no aeródromo francês de Bordéus-Mérignac; no fundo do mar, operam os famosos submarinos nazis, os U-Boote, com os seus torpedos. Esta acção combinada flagela os "comboios" de navios britânicos que sulcam o Atlântico e o Mediterrâneo, causando-lhes pesados danos. Desde a base de Gibraltar, relativamente próxima da nossa costa, os aviões ingleses respondem com renhidas perseguições aos agressores, que muitas vezes prosseguem em espaço aéreo português. Assim aconteceu em Julho de 1943, próximo de Aljezur, quando caças britânicos Hudson e Beaufighter atacaram uma esquadrilha alemã, abatendo um dos aparelhos. Assim terá acontecido também, na opinião de alguns, com os Condor de Moura e de Amareleja.
    A valiosa posição geoestratégica de Portugal, "ponte" entre o norte da Europa e o norte de África, próxima de importantes rotas marítimas, jamais permitiria que o País se mantivesse à margem do conflito. Portugal não tinha meios para impor o respeito pelo seu espaço territorial, fazendo assim valer a proclamada neutralidade. Nem se preocupava muito em protestar quando esse espaço era violado, por vezes em circunstâncias que punham em risco a população civil. Só o avião que se despenhou perto de Amareleja, transportava quatro bombas, se tivesse caído sobre a povoação, ter-se-ia dado um drama de proporções incalculáveis.
    Domingos Ramalho, o pastor de Amareleja que a necessidade obrigou ao contrabando, faleceu há alguns anos. Mas um dos seus filhos, Manuel Ramalho, recorda-se com precisão da história do avião da herdade da Tapada, tantas as vezes que a ouviu contar ao pai. O amarelejense António Bolrão, 79 anos, esteve entre as largas centenas de pessoas que se deslocaram à herdade, para observar o que restava do Condor. "O avião, um quadrimotor, estava partido aos bocados. Um bocado duma asa aqui, mais à frente uma parte da carlinga com dois cadáveres carbonizados, carregadores de metralhadora, destroços dos motores, eu sei lá... Pensou-se inicialmente que alguns aviadores teriam conseguido escapar, porque se viam vários pára-quedas". Porém, "mais tarde soube-se que não sobreviveu ninguém".
    "Na madrugada de 15 do corrente, cerca das cinco horas, sobrevoou as proximidades de Amareleja, com indícios de navegar em pane, um quadrimotor alemão, cuja passagem foi vista por algumas pessoas, em Beja, Serpa e Moura a hora tão matutina, indo explodir, com grande fragor, na herdade da Tapada, pertencente ao sr. dr. Domingos Garcia Pulido, a três ou quatro quilómetros daquela povoação e próximo do seu campo de aterragem", noticia o "Jornal de Moura" de 21 de Junho de 1941. Numa derradeira tentativa de evitar a queda, o Condor terá tentado aterrar no pequeno aeródromo de Amareleja. Contudo, a manobra foi mal sucedida.
    Os destroços "foram cair num raio de algumas centenas de metros entre a herdade referida e o sítio de Fornilhos. Nos dois grupos mais importantes dos destroços foram encontrados os cadáveres dos seis tripulantes do aparelho", especifica o "Jornal de Moura. As quatro bombas que o Condor levava a bordo estavam semienterradas no solo, depois de os aviadores as terem largado, para aliviar o peso do aparelho. A existência de um dispositivo de travamento impediu, felizmente, o rebentamento dos engenhos.

    Combate ou acidente?

    Por que caiu o Condor? Tratou-se de um acidente ou o aparelho foi derrubado num confronto com aviões aliados? Citado por Joaquim Rodrigues, historiador que se tem dedicado ao estudo da propaganda e da espionagem no sul do País durante a II Guerra Mundial, o investigador alemão Gunter Ott inclina-se para causas acidentais. Num texto publicado na edição de Outubro de 1991 da revista francesa "Le Fana de l"Aviation", Ott afirma que "razões técnicas estiveram provavelmente na origem da queda, que começou a elevada altitude". Todavia, contrariando esta opinião, duas testemunhas oculares, dois guardas da GNR em serviço na herdade de Fornilhos, garantiram ter visto um combate aéreo.
    De acordo com um relatório do capitão José Rosas, comandante do Batalhão nº 3, 2ª Companhia da GNR de Beja, os soldados nº 57/4183 e 175/5276 declararam ter ouvido, pelas três horas da manhã, "um ruído de motores de avião". Saíram de casa e "verificaram que sobre a propriedade se travava um combate aéreo entre aviões que a falta de luz não permitiu reconhecer a identidade. Acompanhado o ruído dos motores, ouviam-se distintamente as rajadas das metralhadoras". Há depois um intervalo, mas cerca das quatro horas "novamente os ruídos dos motores se fizeram ouvir e as rajadas de metralhadoras". Os guardas "não sabem o número de aviões, porém ouviram ruídos de motores que se afastavam na direcção sul e nascente".
    Outros depoimentos confirmam que nessa madrugada de 15 de Junho de 1941 várias aeronaves atravessaram a região alentejana. Um telegrama do comandante do posto da GNR de Reguengos de Monsaraz indica que "aviões desconhecidos" sobrevoaram a localidade, às quatro da manhã. Pouco depois dessa hora passaram também "sobre Cuba aparelhos desconhecidos com rumo nascente-poente. Em Mombeja, Aljustrel, Castro Verde, Mértola e arredores de Beja, foi notada a passagem de aviões quase à mesma hora".
    É muito provável que estas movimentações aéreas estivessem relacionadas com um raide contra um comboio de navios ingleses, a que alude uma nota do Alto Comando das Forças Armadas alemãs. Nessa operação, que se desenrolou a oeste de Gibraltar, "foram destruídos cinco navios mercantes com o deslocamento total de 21 toneladas". Possivelmente, o Condor da herdade da Tapada foi um dos carrascos das embarcações inglesas. Terá sido atingido por fogo inimigo na viagem de regresso ou num hipotético combate nos céus de Amareleja? Ou tudo não passou de um acidente?

    fim da 1 Parte...Continua
     

    Ficheiros Anexados:

  2. Se continua, fico à espera.
     
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