Notas de viagem e descobertas em palheiros alheios

Saúdo todos. Esquivo-me às apresentações, não porque seja muito conhecido, mas porque já me apresentei em tantos fóruns, que de alguma forma, um bocado, sim; já nos conhecemos...
Apenas volto a dizer que sou maluco por carros italianos e que tenho a sorte de ter alguns, um dos quais em restauro profundo: o Alfasud Sprint Veloce 1.5 que foi o último carro do meu pai:





Mas este tópico é sobretudo sobre a minha última viagem a Itália, onde durante um mês produzi um filme de um jovem realizador italiano.
Filmámos numa villa seiscentesca, enorme, coberta de frescos do Tiepolo e do Chiarottini, que estava em parte restaurada e noutra parte em quase completa ruína.
Logo no dia da primeira visita, para ver se de facto poderíamos lá filmar, tomar um chá com os proprietários e dar todo o charme possível, vislumbrei assim que entrei, ao longe, debaixo de um telheiro no parque o escudete do frontal de um alfa romeo.
Durante a conversa, em que se explicou aos senhores que não senhor, um mês com trinta pessoas a passar a toda a hora por toda a casa, esticar cabos, arrastar móveis e gritar por silêncio para se filmar não incomoda nada, só pensei que não só a grappa que nos ofereciam era muito boa, mas que deveria ir verificar que carro era aquele. Uma giulietta berlina? Um 1900?
Assim que o meu grupo foi efectuar uma visita à casa, eu escapei-me o tempo que pude, para ir descobrir isto:





Regressei à discussão sobre a casa, satisfeita a minha curiosidade: era um Alfa Romeo 1900 Berlina 1ª série, no estado que podem ver. (poderiam, se eu conseguisse colocar fotografias...) A senhora da casa, ao ver-me regressar com o casaco cheio de teias de aranha e a sacudir a terra dos joelhos das calças riu-se e percebeu tudo, tendo-me contado a história: era o carro do seu avô, que depois passou para o seu pai, que um dia, ao comprar um carro novo (e que carro seria?...) o deixou ali a apodrecer, por volta de 1960...

Chegados a acordo sobre as filmagens (passei a querer à força filmar naquela casa, só para ver se ficava com o carro), passou-se cerca de um mês de preparação, durante o qual não houve um dia em que eu não visse ou Lancias Fulvia (Coupés e Gts), Fiats 500 às centenas, um Porsche 1600 super, alguns Alfa Romeos Gt junior, um Montreal, um Maserati Merak, dois Ferrari feiotes dos anos 80, e por aí fora. Bendito país!

Ao começar a rodagem deparámo-nos com o problema da instalação eléctrica da villa, que, velha e fraquinha, não poderia aguentar de forma nenhuma as nossas luzes. Foi então preciso alugar um gerador e como a diferença de preço entre um gerador insonorizado e um normal era abissal (bendita direferença de preço), optei obviamente por um gerador normal, das obras, que como fazia um barulho infernal teria que ser posto o mais longe possível do ponto central da casa, onde estávamos a filmar.
Lá fui eu espreitar dentro da enorme ala Sul da antiga casa agrícola, para descobrir um bom sítio para o gerador.
No final dos cem metros de profundidade de um armazém centenário, nos confins da propriedade, abri a custo o portão de madeira e quase caí no chão:





As filmagens decorreram bem, acho, porque passei o resto do tempo a meter o nariz nos carros e a tentar trazê-los para cá.
O 1900 está em muito mau estado, mas tem o motor completo e em falta apenas o pára brisas e alguns manómetros. A chapa está no fim...
O Giulietta Sprint (é um carro da 3ª série, curiosamente com motor 1600 de fábrica, pelo menos é o que diz a chapa de identificação original do carro...) está completo, tendo todas as peças cromadas sido retiradas e catalogadas. Encontrei-as a 20 metros do carro dentro de dois caixotes fechados.
Alguma investigação feita pelo nosso amigo Berardo e por mim no Archivio Storico, confirma: o carro foi fabricado em Novembro de 1960 e vendido em Udine (onde está ainda) em Janeiro de 1960 ao seu primeiro dono, o pai da senhora hoje proprietária da casa.
Portanto o senhor tinha bom gosto e trocou o seu 1900 que já fora do seu pai por um Giulietta Sprint novo!

Mais fotos de um e do outro:










O giulietta tem alguns podres, terá que ser todo levado à chapa, cortado, chapa nova em muitas partes, mas está lá todo e é um dos meus alfas preferidos. È um automóvel lindo, para mais no seu azul "bluette".
A senhora, numa primeira abordagem não estava interessada em vender, argumentando que ainda os vai restaurar... Um dia... Depois de a fazer concordar comigo que tal coisa nunca irá acontecer, uma vez que não sabe sequer o que é uma vela e que tem uma casa enorme, aliás um palácio para recuperar antes que lhe caia em cima, argumentou que não queria ver-se livre de duas recordações da sua infância, o que é respeitável, mas as suas recordações estão a apodrecer, naquela situação. O charme e preserverança portugueses vencem (quase) sempre...
Estamos então de acordo em negociar um preço justo e se tudo correr bem, no final do verão haverá mais sucata em Portugal...











Entretanto pude visitar uma exposição fantástica sobre a história e o design do automóvel: Mittomachina, no MART, museu de arte contemporânea de Trento/Rovereto: Desde um Alfa ainda não Romeo até alguns Maseratis e Lancias, o carro talvez mais espectacular era o Lamborghini Miura P400SV, ao pé do qual a minha namorada me tirou uma fotografia enquanto eu brandia a chave do nosso...
...Fiat Panda.
Vejam em www.mart.trento.it/.

Tentarei repor as fotos amanhã...
 

Anexos

Luis Silveira

Clássico
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Luis
 
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