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Recordando Norman Casari

Tópico em 'O nosso hobby: Clássicos' iniciado por Armando de Lacerda, 2 Nov 2008.

Tópico em 'O nosso hobby: Clássicos' iniciado por Armando de Lacerda, 2 Nov 2008.

  1. NormanCasari.jpg

    Norman Casari, em 1971, em Nova Lisboa

    Há pouco tempo, o meu Amigo Alexandre Caldeira inseriu, nalguns fóruns, uma biografia sobre Jan Balder, piloto que correu por duas vezes nas “6 HORAS Internacionais de Nova Lisboa” e que ainda hoje dedica muito da sua vida au desporto automóvel.

    Penso que já vi este trabalho aqui no Portal, mas devo estar equivocado porque não consigo encontrá-lo.

    Face aquele trabalho, achei interessante fazer também um pequeno tópico sobre o piloto que fez equipa com o Balder: Norman Casari.

    Trata-se, assim, de uma modesta homenagem a um excelente piloto e pessoa de fino trato que deixou um amigo naqueles que tiveram o prazer de com ele privar.

    Filho do industrial italiano António Casari e de Sílvia Barbosa, Norman Barbosa Casari nasceu em São Paulo a 2 de Novembro de 1936.

    Aos dez anos começou a conduzir, ao lado do pai que não tirava os olhos do volante e do travão, o que originou que aos doze anos tivesse espalhado o pânico na família pois, na companhia de um amigo, meteu-se no carro e deu uma volta pelo bairro.

    O seu grande sonho era ser um grande automobilista.

    Já a viver no Rio de Janeiro, com catorze anos, participa numa corrida de motorizadas mas não se sentiu atraído pela modalidade a qual não lhe proporcionou qualquer prazer.

    Só aos vinte e quatro anos faz a sua primeira corrida, participando com um Volkswagen, na inauguração de Brasília.

    Adquire, depois, um DKW - Vemag e começa a correr com o número 96 que mantém ao longo da sua carreira por o considerar o seu numero da sorte.

    Em 1965, o chefe de departamento de competição da Vemag, Jorge Lettry, projectou construir um carro capaz de estabelecer o recorde brasileiro de velocidade absoluta em linha recta, projecto que levou oito meses a concretizar.

    Nascia, assim, o “Carcará” desenhado por Anísio Campos e construído em chapa de alumínio por Rino Malzoni e assente num chassis de Fórmula Júnior que havia sido construído, em 1963 por Toni Bianco.

    Marinho Camargo havia sido o piloto escolhido para tripular o carro na tentativa de recorde mas, receoso, desistiu por não ter confiança no bólido.

    Lettry convida então Casari que aceita o desafio, limitando-se a trocar o volante por um de madeira com um enorme diâmetro pois, como o recorde era tentado em linha recta, tornando a direcção mas lente poderia minimizar parte das reacções rápidas nas possíveis mudanças de direcção.

    A prova que teve o apoio do “Quatro Rodas”, foi fiscalizada por um comissário internacional e realizou-se na estrada Rio – Santos, ao nível do mar, estabelecendo o regulamento um percurso de três quilómetros: o primeiro para embalar, o segundo para cronometrar e o terceiro para travar.

    Assim, no dia 20 de Junho de 1966, Casari entra para a história do automobilismo brasileiro ao estabelecer a velocidade absoluta de 212,9 quilómetros/hora.
    Cinco anos depois, tentou, de novo, bater este recorde com o Lola T70, mas como nos treinos o motor falhava bastante, trocou de viatura e com o seu protótipo Casari Ford 230 estabelece nova marca alcançando os 235 km/h.

    No mesmo dia em que conquista o recorde com o “Carcará”, em sociedade com o seu amigo Mauro de Sá Motta Filho, inaugura a sua oficina “Cota”, concessionária autorizada da DKW – Vemag.

    O “Carcará”, que após o recorde tinha voltado para a Vemag, foi doado ao Norman e ficou em exposição na sua oficina em Botafogo.

    Esta foi a fase de ouro na sua carreira pois, com o DKW – Vemag, ganhou fama conquistando o campeonato carioca em 1966 e 1967.

    Em finais de 1968 veio para a Europa, juntamente com Luís Pereira Bueno, Milton Amaral e Ricardo Achcar, para fazerem testes na equipa de Stirling Moss e tentar a participação no campeonato de Fórmula Ford o que, apesar dos bons resultados obtidos, não conseguiu pois apenas havia lugar em 1969 e apenas para dois.

    Volta a Inglaterra em 1970 e com um Titan MK-6, alugado ao piloto Valentino Musetti, participa em três corridas de Fórmula Ford obtendo bons resultados. Porém dificuldades financeiras obrigam-no a regressar ao Brasil.

    Ali e mercê de um acordo com a cervejeira Braham forma a equipa Casari/Braham abrindo, assim, as portas para investimentos de outras grandes empresas no automobilismo desportivo..

    A 30 de Maio de 1971, nos “300 Quilómetros de Turumã” a equipa Casari/Braham inscreve dois carros: o Lola T70 pilotado pelo Norman, sempre com o número 96, e o protótipo CasariA1 com o chassis do “Carcará” e equipado com um motor Ford V8 que foi conduzido pelo Jan Balder.

    Em Agosto de 1971 chega a Nova Lisboa, em plena lua de mel, acompanhado da actriz e lindo modelo Tânia Scher, para disputar as “6 Horas”.

    O seu fino trato, assim como dos restantes componentes da equipa, cativou toda a gente com a simpatia que irradiavam.

    Ainda hoje recordo uma frase dele dada ao Alexandre Caratão, locutor do Rádio Clube do Huambo.

    Naquele ano, eu havia alterado o traçado da prova o que provocou muitos comentários sobre uma curva muito apertada que, na opinião de uns tantos, poderia ocasionar muitos acidentes.

    Entrevistado para aquela estação, surgiu a questão sacramental sendo-lhe pedida a sua opinião sobre os possíveis desastres que se podiam verificar.

    O Norman respondeu que já tinha ouvido muitos comentários sobre os perigos existentes o que não compreendia pois tratava-se de um local onde todos os carros tinham de entrar bastante devagar o que eliminava qualquer possibilidade de acidente.

    O locutor perguntou-lhe então qual era o ponto que ele considerava mais perigoso e o Norman mencionou uma curva muito pouco acentuada que existia a seguir ao gancho da rotunda do Vicente Ferreira.

    Admirado, o Caratão exclamou: Aquela curvinha?

    E o Norman respondeu: Pois é! Aquela curvinha feita a duzentos e vinte transforma-se numa senhora curva.

    Para compensar o percalço que tiveram com a impossibilidade de correr devido à avaria do Lola, o Norman quis compensar a organização dando um pequeno curso de pilotagem.

    Aplicando todos os conhecimentos dos cursos que ministrava no Autódromo de Jacarepaguá, realizou um que constava de uma aula teórica e duas práticas realizadas no campo de futebol do Sporting Clube do Huambo com piões de 360º e derrapagens controladas o que despertou grande entusiasmo em todos os participantes.

    Nunca esqueci as palavras com que o Norman iniciou o curso: Meus senhores, entrar numa curva a duzentos e vinte qualquer um entra. O pior é sair dela.

    A simpatia do Casari e do Balder foi tão grande e tinham mostrado tanto empenho em arranjar um carro para poderem fazer a corrida, o que só não foi possível porque eu, para cumprir com os regulamentos, os impedi, que prometi voltar a convidá-los para estarem presentes em 1972.

    E, cumprindo a promessa, no ano seguinte voltámos a convidá-los e, como não tinham carro, alugámos um para que pudessem correr.

    Apesar do proprietário do carro não o ter nas condições ideais, o Norman conseguiu, na qualificação, colocá-lo no quinto lugar da grelha.

    Ao ver a actuação da dupla brasileira, o proprietário do carro, fazendo-se esquecido de que o aluguer da viatura tinha sido à organização da prova, chamou-os tentando convence-los a alterar as cláusulas do contrato de forma a que, se conquistassem um prémio, este revertesse a seu favor.

    Responderam que estavam a correr num carro alugado pelo Sporting Clube do Huambo e, portanto, se conquistassem qualquer prémio esse pertencia aquele clube.

    Só muito mais tarde soube deste encontro, mas eles também nunca souberam que se tivessem conquistado algum prémio pecuniário esse seria inteiramente para eles, assim como as taças.

    Ao longo da sua carreira, participou em dezenas de provas, tendo nos últimos anos como piloto (1974 a 1976) corrido em Ford Maverik

    Fabricou karts e mini carrinhos com um pequeno motor, destinado a crianças.

    Foi proprietário dos kartódromos de Itaipava e do Rio de Janeiro denominado Kartódromo do Recreio de Bandeirantes onde promovia corridas para crianças.

    Como já referi, num comentário feito à biografia do Jan Balder, Casari evidenciou-se na resolução do litígio que se arrastava há anos entre o ACB – Automóvel Clube do Brasil e a CBA – Confederação Brasileira de Automobilismo, contribuindo juntamente com Amadeu Girão para que o processo fosse arquivado.

    No final da década de 70 foi director do Autódromo Internacional do Rio de Janeiro.

    A 31 de Dezembro de 2005, Norman Casari faleceu em Petropólis vítima de uma insuficiência respiratória provocada por um cancro nos pulmões que havia sido descoberto três semanas antes.

    O “Carcará” que havia proporcionado ao Norman a conquista do recorde de velocidade e que havia sido desmontado para aproveitar o chassis na construção do CasariA1 e tendo sido a sua carroçaria cedida à Glaspac, empresa fabricante de “buggys” e outras réplicas em plástico encontrava-se abandonado num telheiro. Foi vendido como sucata de alumínio quando precisaram esvaziar aquele espaço e ninguém sabia para que servia aquele estranho carro.

    Em 2005, Toni Bianco construiu uma réplica do “Carcará” para a Associação Cultural Museu do Automobilismo prestar homenagem aos quarenta anos do recorde e … Norman Casari seria um dos homenageados.

    Esta foi a minha singela homenagem à memória de Norman Casari um dos muitos pilotos a quem se ficou a dever o prestígio das “6 Horas Internacionais de Nova Lisboa”,

    Fontes:
    http://www.bandeiraquadriculada.com
    “Nos Bastidores do Automobilismo Brasileiro – Por que tantas vezes campeão” de Jan Balder.
     

    Ficheiros Anexados:

  2. Obrigado Lacerda pelo excelente artigo e da forma ilustre de homenagear o Normam Casari, partilhando e dando conhecimento às gerações recentes de mais uma personalidade importante no automobilismo.

    O nosso muito obrigado

    Francisco Lemos Ferreira

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    O Lola de de Jan Balder e Norman Casari em Angola

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    Transcrevo o texto do Jason Vogel - Editor do Carro & Etc. do O Globo - que exprime nosso sentimento, em seu artigo "Adeus, Norman":

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    Na última hora - em 29 de junho de 1966 - o piloto Marinho desistiu de guiar o carro de recordes Carcará — o bicho “passarinhava” demais, parecendo incontrolável. Jorge Lettry, chefe da equipe Vemag, chamou então Norman Casari, que assumiu o comando do bólido de alumínio e marcou o primeiro recorde brasileiro de velocidade absoluta pelos padrões da FIA: 212,9km/h no início da Rio-Santos, hoje Avenida das Américas.

    Ver carcará aqui:

    http://www.obvio.ind.br/Novo_Site/me...ara-foto25.jpg


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    O grande dia do Carcará, no Rio de Janeiro: Com Rino Malzoni (de boné) e Anisio Campos nos paralamas e sozinho no cock-pit...


    Belo feito para um “disco voador” equipado com motorzinho DKW de três cilindros e 1.089cm³ e prova maior do arrojo e da perícia de Norman

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    Foi a fase áurea da carreira do volante nascido em São Paulo e radicado no Rio. Norman estreou oficialmente nas corridas em 1960, com um Volks, mas foi com carros DKW-Vemag que ganhou fama.

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    Todo apaixonado por automobilismo conhecia o Malzoni número 96, branco com o capô preto. Ao volante do esportivo com motor “mil” de dois tempos, Norman Casari fazia mágica e andava na frente de Alfa e até de Ferrari. Foi campeão carioca em 1966 e 1967. Em 1968, foi vice. Contava com grande apoio da Vemag, chegando a ser dono da Cota, uma concessionária da marca.

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    Ficheiros Anexados:

  3. Quando se junta um bom piloto,e um bom carro(leia-se DKW)temos obra.:D
    Obrigado amigo Lacerda por mais este pedaço de historia do automobilismo.:feliz:


    ..
     
  4. Ficheiros Anexados:

  5. Extraordinário documento que eu desconhecia inteiramente.

    Obrigado por nos tee proporcionado mais estes elementos para a história do "Carcará" e do Norman Casari.
     
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