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AEC-Adoro Esta Camioneta

Tópico em 'Clássicos de Trabalho' iniciado por Mike Silva, 24 Nov 2008.

Tópico em 'Clássicos de Trabalho' iniciado por Mike Silva, 24 Nov 2008.

  1. Eu sei, mais um post a moer-vos a cabeça a falar sobre autocarros...

    Falar sobre clássicos, tem obrigatóriamente de ser sobre falar sobre memórias. E quanto a isso, não haverá dúvida nenhuma que no que toca a clássicos que tenhamos andado, se todos fizermos uma lista ,entre todos os cidadãos de Portugal com mais de vinte anos, iremos verificar que há uma marca que surgirá em 99,9 por cento das listas, de toda a população.

    AEC...

    Em muitos casos, o " carro do nosso Pai", era um AEC. O do meu era, pelo menos até ao 25 de Abril. Iamos ao Domingo para a Costa, por entre estradas esburacadas cercadas de vegetação descuidada, e de muros de quintas altas, com a buzina de ar a trabalhar em cada passagem estreita,ou curva apertada. O cobrador, segurando-se conforme podia aos prumos cromados, falava sobre Bola com os pasageiros, ou lá à frente com o motorista. Enquanto fumava!

    Os bancos de couro vermelho, imaculados pela ausência da cultura " graffiti", polidos pela sua condição de " autocarro usado", iam sempre cheios, naquela "Transul" de vermelho e cinza desaparecida em 1978.

    O cobrador, o " Ti Teixeira", que com uma perícia de invejar empunhava o alicate dos bilhetes, as notas e os bilhetes separados entre os dedos, procurando o troco dentro da sua mala de couro polido pelo escorregar das moedas, chegou um dia a deixar-nos vir " à borla",porque o meu Pai perdeu a carteira nas rochas. Ou se calhar,jamais saberei, apenas não tinha dinheiro para a viagem, e queria-me proporcionar um Sábado fora.

    As mudanças e a suspensão de molas " de carroça" a trabalhar debaixo do estrado e de ripas, as pessoas a levantarem-se e a tocarem naquela campaínha cromada a dizer "parar", e os dois degraus que pareciam mais mesas de cabeçeira, que tanto desesperavam os idosos, que apenas se podiam aceder puxando manualmente as portas, transportam-me imediatamente para aquelas tardes em que o meu Pai me comprava um gelado no velhote do triciclo estacionado na rua dos pescadores.

    Anos mais tarde, apenas mais tarde o suficiente para poder ainda experimentar os comandos de um AEC, consegui saber ao fim-ao-cabo o que era isso de guiar um AEC. A maioria dos chassis que circularam em Portugal, eram chassis Reliance. Motor e caixa ao centro do chassis, e radiador á frente. Fabricados em Inglaterra pela Associated Equipment Company, os chassis eram exportados para Portugal, onde eram alongados conforme os requisitos, e carroçados por empresas como a UTIC.

    A Força Aérea, baseava como todo o Pais, o grosso da sua frota de transporte pesado de passageiros em AEC.A primeira vez que guiei um AEC, não consegui fazer a curva por detrás da messe de sargentos da BA3... Ninguem me tiha dito que não podia levar um autocarro das oficinas para ir ao Bar ...

    Ligando o botão " IGN" no painel lateral ,escondido quase á saída da porta, e carregando no botão preto mesmo ao lado, o " seis cilindros" deitado com bomba CAV acordava, com uma aceleração esponjosa e sonora. O barulho de um AEC, tal como um carocha ou um dois cavalos , não necessita de apresentações...

    Engrenando a mudança com algum vigor, pois o movimento teria de ser transmitido a caixa de velocidades via um veio com quatro metros de comprimento, e destravando um braço cromado do lado esquerdo, bastava calcar o acelerador em forma de "sapato", para o gentil bambolear das molas ser iniciado, ao mesmo tempo que iniciávamos a marcha.

    Em viagem ( Belas voltas a Vila Real de trás os Montes, para fazer 600 KM para reapertar as cabeças...) A velocidade era aceitável, embora por vezes o vidro de baixar ficasse " pêrro", e não o conseguíssemos subir,enquanto iamos corrigindo a trajectória graças á folga na direcção,comandando aquele volante de liga metálica fundida, com o símbolo no centro. A subida de Vialonga, fazia-a com uma perna ás costas, embora o tivesse de embalar desde onde hoje são as portagens de Alverca.

    A AEC foi anexada pela British Leyland, em 1979 e desapareceu como fabricante. Em 2004, os mais populares AEC do MUndo, os doubledeckers londrinos, foram retirados de serviço.Porém milhares de AEC em todo o Mundo continuam a ser restaurados e mantidos, e os seus valores continuam a subir como clássicos. Um dos fortes impulsionadores de tudo isto, é a " AEC Society" ( www.aecsociety.com), que reune entusiastas de todo o Mundo, e tem sede e oficina própria. Tornei-me membro desta associação em 2005, e colaboro activamente no resturo destes monstros incompreendidos, mas que tantas memórias me trazem.


    Da próxima vez que virem um AEC, lembrem-se de como costumava ser antigamente. E lembrem-se que debaixo de toda aquela carroçaria pôdre e de vidros partidos, está um clássico que precisa de atenção.

    Escrevo todo este texto, depois de ter vindo de Blackpool onde fui buscar um Reliance de 1967 que perdia ar e não tinha Chauffage, debaixo de chuva torrencial. Um compressor ligado ás baterias, e á tomada de ar dos depósitos, vestido a rigor para este Inverno Inglês, meti-me á M6 com o meu amigo Matt Hearson.

    Mais uma vez,embora do "outro lado da estrada" e com o volante " na saída dos passageiros", voltei a ter cinco anos e a ter o meu Pai ao meu lado, numa esburacada estrada para a Costa...


    AEC: Adoro Esta Camioneta...
     
    Paulo Jorge coralejo gostou disto.
  2. Como eu aprecio as tuas historias...porque fazem parte também das as minhas.
    Cumprimentos.
     
  3. Que saudades....o que eu gostava de andar nessas camionetes, então os de 2 pisos era epectacular, ia sempre para o piso superior e à frente, que nostalgia, nada será como antes, e em Portugal há tantos ao abandono, fora os que já foram desmantelados:(
     
  4. Não Mike não é mais um post a moer-nos a cabeça,pelo contrario,por mim falo adorei ler.
    Fantástica descrição,de uma realidade passada,que quer se queira ou não marcou.TKS
     
  5. Gostei de ler Mike, como alguém já disse, quando pões de parte as referências à Gestapo dos Parafusos, dá um gozo tremendo ler as tuas histórias tentando recriá-las no nosso lado!

    Se puderes põe fotos dessa camioenta que foste buscar ;)
     
  6. Irei por ,sim senhor! Amanha vou estar com ela, pois tenho uns depositos de ar para substituir. Os que la estavam,tinham FIBRA DE VIDRO a tapar fugas!

    Vai levar com uns duma Scania L113, incluindo suporte e tudo. Não creio que os meninos das camisinhas de marca se vão lá colocar debaixo para coçar o nariz e dizer que não é de origem...

    Interessa é trabalhar,e ser fiável. E manter o veículo na estrada. Carros parados, para mim, são armazens e caixas para guardar coisas...E para sacar peças para outros.
     
    Paulo Jorge coralejo gostou disto.
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